domingo, 17 de outubro de 2010

Tambores Criados Por Deus? Ezequiel 28:13

Pastor, em sua postagem “A Bateria e a Inspiração”, do dia 26/09/10, você usou Ezequiel 28:13 para apoiar-se no argumento de que teria sido Deus quem criara os tambores. Entretanto, há quem questione tal tradução. Um grande contra-argumento, por exemplo, pode ser visto numa postagem de Hilton Bastos, “Tambores Criados Por Deus?”, no blog Resta Uma Esperança. O que dizer? Qual é a melhor tradução de Ezequiel 28:13? Com tambores ou sem tambores?

"Estavas no Éden, jardim de Deus; toda pedra preciosa era a tua cobertura: a sardônia, o topázio, o diamante, a turquesa, o ônix, o jaspe, a safira, o carbúnculo, a esmeralda e o ouro; a obra dos teus tambores e dos teus pífaros estava em ti; no dia em que foste criado, foram preparados."
Ezequiel 28:13.

Sobre o Artigo de Hilton Bastos...
Li o artigo. A intenção foi boa, mas nele, vi uma limitação teológica que o deixa em “maus lençóis”. Hilton pergunta: “Se Deus criou os tambores, por que eles não se encontram em nenhum dos versos que autorizam o uso de instrumentos musicais no Templo?”. Na Bíblia, não há um único verso cujo objetivo hermenêutico seja apresentar uma lista de autorização seletiva de instrumentos musicais no Templo. Os textos que apresentam a suposta lista são histórico-descritivos, e não normativos.

Em seguida Hilton compara Templo com o santuário celestial numa exigência de que suas liturgias sejam exatamente iguais. Entretanto, o sentido teológico de que um é cópia do outro refere-se à forma física (cf. argumento “urbild, vorbild, nachbild de Richard Davidson), e não ao que se executa dentro dos mesmos. Será que Hilton espera que animais sejam mortos diariamente, que lâmpadas sejam alimentadas com azeite de oliva, e que haja desmontagem e carregamento periódicos, no santuário celestial? Da mesma forma, temos que admitir que a musicalidade terrestre, por mais sacra que seja, é impura, imperfeita e incompleta demais para servir para ser executada no Céu.

Mas não há um único lugar na Bíblia que, referindo-se aos tambores, diga que Deus “não autorizou o seu uso em Seu templo terrestre”.

E então o autor conclui suas perguntas questionando a imutabilidade de Deus, apresentando textos forçados (que falam do caráter de Deus, e não de liturgia), para insinuar que Deus não aceite diferentes formas de adoração. Para ser coerente, Hilton deveria rasgar e jogar no lixo toda a liturgia tradicional da IASD, e adorar a Deus com a liturgia usada pelo Israel Antigo, há milênios.

Hilton ainda tenta imaginar a diferença sobre como os tambores e os címbalos eram utilizados. Ora, se não sabemos como eram as melodias, harmonias, etc., usadas pelos hebreus, se não nos restaram as musicalidades das letras dos poemas bíblicos, como é que ele sabe detalhes das execuções dos instrumentos? Já sei. Baseado em outros autores que também se apóiam em conjecturas.

Se ele sugere o forçado e fraco artigo do Levi Tavares, deve ser porque, provavelmente, não tenha lido ainda o material escrito por alguém muito mais tarimbado para o assunto, por conseqüência, um material incomparavelmente mais teológico: “Tambores e os Instrumentos do Senhor”, publicado em http://www.adventismorelevante.com/2009/08/tambores-versus-instrumentos-do-senhor.html .

Depois de suas perguntas, Hilton interpreta mal (não somente a Bíblia) o texto do SDABC. Ele diz que o comentário vê duas possibilidades de tradução para toph. Engano. Leia direitinho o que o comentário diz. O comentário propõe claramente sua definição para toph, e menciona que outras fontes vêm em toph outros significados (e não ele – o SDABC – !). Isto é normal em qualquer comentário bíblico, em qualquer trabalho acadêmico, em qualquer matéria jornalística, em qualquer comunicação que preze pelo principio da honestidade ao lidar com as informações. É o que os comunicólogos chamariam de imparcialidade.

Hilton se apóia na NIV, que não menciona o instrumento musical, mas fecha um olho para a nota de rodapé da NIV, que admite que sua própria tradução desta lista é duvidosa. E ao citar Moody, também fecha um olho para o fato de que o próprio Moody admite que o texto massorético, que é muito mais confiável do que o da Vulgata, cita “tamborins” e não “engastes”. Moody, ao ver, no contexto, a necessidade de engastes, não chega a contradizer, pois nos tamborins, assim como na estola, há engastes.

Hilton expressa o pensamento de que a informação da musicalidade de Lúcifer seja algo exclusivo entre Deus e EGW, ignorando o fato de que vários teólogos não-adventistas, vêm, em Lúcifer, o mesmo dom musical que os adventistas vêm. Baseados em quê? Nas passagens Bíblicas que descrevem as figuras de Lúcifer relacionadas, também, à música (para conhecer estas passagens que são bíblicas – e não adventistas – veja o artigo de João Wilson Faustini , Música: do Divino ao Maligno, www musica e adoracao ponto com ponto br).

A incoerência do pensamento de Hilton chega ao ápice quando ele admite que, para a “idéia de ter sido Lúcifer diretor do coro celestial” a citação de EGW em 1 SP 28-29 – Spirit of Prophecy, vol. 1. Pág. 28-29 PODE ser relacionada a Ezequiel 28:13, mas para a idéia “de que Deus teria criado os tambores para Lúcifer”, as mesmas referências NÃO PODEM ser relacionadas. Ou seja, quando há apoio para meus pressupostos, beleza, quando não há, então é ilegal.

Terminando, Hilton usa Isaías 28:10 num sentido eisegético (confira o sentido correto de Isaías 28:10 em http://www.bibliaonline.net/bol/?acao=por_verso&livro=23&capitulo=27-29&versiculo=&versao=1&tipo=1&anobiblico=30/07&lang=BR&cab=1&link=bol ), e insinua que não haja mais apoio bíblico-teológico para discutir o assunto. Isto é o que veremos.

Mas antes de analisar a tradução de Ezequiel 28:13, não esqueçamos ainda de algumas contradições de Hilton.

Hilton “chuta no escuro” fato do silêncio bíblico, baseando-se na hipótese de que, se a Bíblia não menciona tambores no templo, então seria porque os tambores haviam sido proibidos. Mas ele:
a) ignora que a Bíblia não diz “somente” alaúdes, címbalos e harpas, ignora que a melhor tradução seria “instrumentos de sopro, percussão e cordas”;
b) ignora que a Bíblia, em lugar algum, diz algo do tipo “no templo não haviam tambores”;
c) ignora que o Salmo 81, que ordena usar tambores, é composto pelo chefe da música do templo, para os executantes da música no templo;
d) ignora o que o Talmude diz sobre a liturgia do templo ao referir-se ao uso dos tambores no segundo templo (Talmude, Tratado 13; 7:4); e,
e) ignora o que o Mishná diz sobre o uso de tambores no templo (Mishnah; Kinnim 1:1, Mishnah; Arakhin 2:3) (Ambas fontes citadas por André Reis em “Tambores e os Instrumentos do Senhor – http://www.adventismorelevante.com/2009/08/tambores-versus-instrumentos-do-senhor.html – ao comentar que, em Music in the Bible. (Shabbat
Shalom: Outono de 2002); p. 24, Liliane Doukhan, Ph.D., professora de música na
Andrews University, ensina que no segundo templo flautas e tamborins eram usados; veja também, de André Reis, no artigo “Fogo Estranho X Fogo do Senhor”, publicado no Advir a nota de rodapé número 6, e compare com a introdução do Salmo 81).

Depois de tantas ignoradas, Hilton insinua que toph poderia, no vernáculo hebraico, ter um homônimo, mas não cita tal suposto homônimo. Claro, ele também ignora que em nenhum lugar do Antigo Testamento toph é traduzido de outra forma.

Hilton se contradiz, ou pelo menos mostra uma indecisão muito grande, ao não saber que tendência de tradução escolher. Explico. Há duas linhas teológicas muito claras, em duas preferências diferentes, na escolha de como traduzir este versículo:
a)Os que preferem incluir todos os itens na indumentária do rei de Tiro, seguindo geralmente a lista de pedras preciosas; ou
b)Os que preferem listar as nove pedras preciosas e em seguida a beleza da criação dos instrumentos musicais.
Hilton admite que EGW é inspirada e faz menção ao dom musical de Lúcifer, neste verso. Nisto, Hilton estaria seguindo a segunda opção, das duas apresentadas acima. Entretanto, Hilton não crê que este verso faça menção aos tambores. E nisto, Hilton estaria seguindo a primeira, das duas opções apresentadas acima. Portanto, como Hilton traduziria o versículo (se é que ele lê hebraico)? Se ele traduzir na primeira opção, sua tradução não terá nada a ver com música, e então estará contradizendo EGW, que vê neste verso a citação à musicalidade de Lúcifer. Se ele traduzir na segunda opção, estará contradizendo a si mesmo. Entretanto, ele não apresenta uma terceira proposta de tradução.

Na realidade, no fim do artigo, Hilton admite que não sabe o que deve ser feito com a interpretação deste verso. Se não sabe de nada, por que se atreve a comentar? Para levantar mais dúvidas, é o que me resta a supor. Mas vamos analisar mais um pouquinho desta tradução de Ezequiel 28:13.

Sobre o Versículo de Ezequiel...

Você não é o único a fazer-me esta observação, sobre o apoio a traduzir Ezequiel 28:13 mencionando os tambores como criados por Deus. Na verdade, há teólogos que também têm suas ressalvas neste assunto. Recentemente, recebi um email de um acadêmico de universidade, com pós-graduações tanto em música quanto em teologia (portanto, músico e teólogo), dizendo-me que “pensaria duas vezes antes de usar essa passagem pra falar de tambores”.

Entre nós adventistas, o primeiro questionamento que surge é pelo lugar em que o SDABC busca apoiar-se, para preferir os “tambores”: em EGW. O argumento é que, apesar de EGW usar esta passagem para falar de música, ela não seria a última palavra em questões exegéticas. Com esta última frase eu concordo. O próprio EGW Estate, segundo informa-me uma pessoa chegada que trabalhou como assistente de pesquisas Centro White, constata que, apenas em menos de um por cento de todos os seus escritos, EGW faz exegese. Mas faço lembrar que, apesar disso, as palavras “inspiração” e “revelação” estão acima das palavras “homilética” e/ou “exegese”. Homilética ou exegéticamente, uma vez inspirada, estaria EGW errada, em relacionar Ezequiel 28:13 ao ministério musical de Lúcifer? Lembre-se: por mais aplicativo ou pastoral que seja, o homilético nunca pode contradizer o exegético.

Apesar dessa discussão sobre a autoridade da aplicação que EGW dá a Ezequiel 28:13, muito antes de ir saber o que EGW teria dito sobre Ezequiel 28:13, eu já havia tomado posição em relação à tradução deste versículo, muito mais por questões teológicas do que denominacionais.

Dentre os vários comentários bíblicos pelos quais pesquisei sobre o assunto, uma boa parte (aproximadamente 30%) tende a não querer dar sua opinião sobre a questão de haver tambores ou não em Ezequiel 28:13. Dentre estes comentaristas bíblicos (relacionados aos estudos em Ezequiel) que preferem nem discutir o assunto, estão Dianne Bergant, Frank Holbrook, Robert J. Karris, Arnold V. Wallenkampf, Siegried J. Schwantes, Adam Clarke, Henry McKeating, John M. Fowler, Joseph Blenkinsopp, etc.

Entretanto, muitos se posicionam, ou de um lado ou de outro.

Em cerca de 55% de minhas pesquisas encontrei nos teólogos a tendência de traduzir Ezequiel 28:13 citando os tambores. Ou seja, a maioria é unânime em aceitar traduções como a da RC, por exemplo, que menciona a criação celeste deste instrumento musical.

Menos de 15% dos exegetas que consultei são enfáticos em preferir as traduções que não citam instrumentos musicais. O mais agravante é que este último grupo ainda se divide. Uns preferem um modelo de tradução que cite 12 pedras preciosas (e/ou semi-preciosas, e outros são mais flexíveis em citar apenas 9 pedras preciosas (e/ou semi-preciosas) e no final falar sobre a beleza de Lúcifer e do contexto em que ele vivia, mas também não falar de tambores.

E de onde viria esta aparente divergência em definir a tradução deste versículo? É necessário assumir que o hebraico da última parte do verso treze de Ezequiel é linguisticamente difícil, entretanto, a dificuldade não se oriunda da morfologia sintática. Temos que ter em mente o conhecimento do que se passa com as versões de traduções bíblicas mais antigas, pois versões mais recentes têm tanto a opção de usar como base os manuscritos, quanto a opção de usar as versões anteriores já traduzidas. Isto leva-me a, em assunto de consultas a versões, consultar, em primeiro lugar, a algumas versões das LXXs e à Vulgata Latina. E a informação é: tanto a Vulgata quanto as versões da LXX não colocam tambores em suas traduções. Mas os manuscritos hebraicos apresentam a palavra toph, que é, literalmente, tamborim.

Por que razão essas duas versões não seguiriam a mesma tendência do texto massorético? Poderíamos dizer que os setenta anciãos e/ou Jerônimo teriam usado outra cópia de manuscrito com dizeres diferentes do texto massorético? Isso é muito improvável, uma vez que não há esta opção, de manuscrito(s) hebraico(s) com a ausência da palavra toph no texto. Logo, o mais provável é que, na dificuldade lingüística, sem tantos recursos a consultar, estes tradutores mais antigos tenham sido guiados por seus pressupostos e conveniências. Não colocar os tambores em sua tradução muito ajudaria a Jerônimo, diante das confusões que existiam em sua época, quanto a liturgia e teologias de formas de adoração. Tal tipo de tendenciosidade pode ter acontecido com a LXX também. Existe a comparação questionativa no sentido de que, se o sacerdote usava um peitoral com 12 pedras preciosas, e o rei então teria usado uma roupa semelhante, teria sido com nove ou com doze pedras? A questão é que o rei de Tyro não era israelita, e, em sua religião fenícia (Brandon L. Fredenburg, The College Press NIV Commentary, Ezekiel, 252) não tinha seus ornamentos ritualísticos exatamente iguais aos do povo hebreu. Mas a LXX atropela este detalhe, ao traduzir o texto hebraico para o grego. Um dos maiores interesses da tradução da LXX foi a busca desesperada por remontar, manter, preservar e fazer existir dali em diante, de forma forte, a existência da tradição judaica. Neste sentido, foi que, provavelmente, os editores desta versão buscaram remontar o peitoral sacerdotal, aproveitando-se do fato de que o texto hebraico era realmente um texto complicado (não seria qualquer um, que acharia o erro!), após enumerar as nove pedras, e então, ampliando a lista de 9 pedras do rei de Tiro para a lista de 12 pedras dos sacerdotes, eliminaram os instrumentos musicais.

Entretanto, o comentário bíblico de Jonh H. Walton, Victor H. Matthews e Mark W. Chavalas, admite que é mais viável aceitar que, tanto no texto hebraico quanto na roupa do rei, a lista seja de somente nove pedras, e não doze (The IVP – Bible BackGround Commentary Old Testament, InterVarsityPress, 2000). O rei de Tiro seria um tipo imperfeito de sacerdote, assim como Lúcifer não pode (ou pôde) representar ao Sumo-Sacerdote celestial, Cristo, por aquele ser menor que Este. Jonh B. Taylor, arquidiácono de West Ham, Essex, apesar de trabalhar encima do texto da LXX, com a lista das 12 pedras preciosas, admite, em seu comentário bíblico, que o texto massorético apresenta “tambores e flautas”, após uma lista de nove pedras preciosas, e não uma lista de 12 pedras. (Ezequiel, Introdução e Comentário – Série Cultura Bíblica, Edições Vida Nova, 177).

Diante disso, é interessante notar para onde tendem as versões modernas de tradução da Bíblia. As traduções que usaram mais veementemente a Vulgata e/ou a LXX (com algumas exceções) tendem a não citar os tambores. As traduções que se valeram mais dos manuscritos hebraicos são as que, coincidentemente (com algumas exceções), citam os tambores e as flautas. Um exemplo disto pode ser visto na tradução de João Ferreira de Almeida. O que Almeida teria traduzido, em seus originais? Engastes ou tambores? O que sabemos é que a versão Revista e Corrigida, de Almeida, que é de 1898, é uma expressão mais próxima dos textos originais (Textus Receptus e Texto Massorético) com que Almeida trabalhou, e que já a versão Revista e Atualizada, é de 1959, baseada no Texto Crítico, e teve uma tendência muito maior em consultar tanto a LXX quanto a Vulgata, em seus trabalhos de edição do AT, do que a RC. Isso é algo bem considerável, ao procuramos saber por que a RA escreve engastes e a RC tambores, conhecendo os pressupostos que envolviam todo o contexto em que tais pessoas, desta e daquela versões, viviam. Daniel I. Block, em seu comentário bíblico confessa que a tendência em traduzir como engastes, beleza ou pedra preciosa, e não como instrumento musical é apoiada nas versões LXX e Vulgata Latina, e não no texto massorético, e ainda coloca que as traduções que citam a “beleza” em lugar do instrumento recorrem a uma palavra cognata à “tophe” hebraica, que seria a palavra ugarítica “tôpi” (The New Iternational Commentary on the Old Testament, Eerdmans Publishing Co. 1988, páginas 100-110). Esta última tendência é, simplesmente, uma aberração editorial.

Já que estamos falando das diferentes versões de tradução bíblica e suas tendências sobre como traduzir Ezequiel 28:13, compartilho aqui uma curiosidade. Em meus escritórios, ao estudar este tema, tive (e tenho) acesso a 29 bíblias de diferentes versões.
Destas, há 18 versões que traduzem como tambores, e ponto final. São elas: ACF, LUT, DO, RV, TB, RVR, ASV, YNG, RC, KJV, NKJV, DBY, WEB, HNV, CR, YLT, WEBSTER, BJ (francesa) e a Versão Italiana de Giovanni Diodati.
Ainda das 29 versões às quais tive acesso, 6 delas, apesar de não apresentarem os tambores, relutam em sua tradução, fazendo a observação de que a identificação de algumas destas supostas palavras vem a ser incerta: NLT, ESV, BLH, NTLH, NIV e NVI. E destas seis, quatro confessam que o texto hebraico traz ‘os seus tambores e as suas flautas’.
E, também das mesmas 29 versões que conferi, apenas 5 traduzem como outra coisa diferente de tambor, e pronto, não dizem mais nada. São elas: NASB, RSV, RA, TNM e NRV.

Steven Tuell admite que, realmente, a lista de pedras preciosas, no texto massorético, é quebrada (New International Biblical Commentary – Ezequiel, Henrickson Publishers, 2009, página 196). Mas, seria, esta lista de pedras, quebrada para inserir, na descrição do rei, instrumentos musicais? Isto teria a algo a ver com o contexto?

É aqui que precisamos lembrar que Satanás era um querubim da guarda, ungido (Lawrence O. Richards, Bible Teachers’s Commentary), que permanecia no monte de Deus, um lugar de muito cântico e louvor, que segundo o Velho Testamento, é o lugar da autoridade de Deus. “Ele possuía instrumentos especiais de louvor, como tambores e pífaros, como vemos nas melhores traduções de Ezequiel 28:13 e 14 e também uma harpa, como vemos em Isaías 14:11”. (João Wilson Faustini, “Música: do Divino ao Maligno”, www musica e adoracao com br ).

Não são apenas os adventistas que reconhecem este dom musical de Lúcifer, em seu estado de perfeição. O Pr. José Roberto Miranda, da IEQ, afirma que “antes de sua queda, Lúcifer era um chefe dos músicos. Ezequiel 28:13 nos diz: ‘a obra dos teus tambores e de teus pífaros estava em ti: no dia em que foste criado foram preparados’. Lúcifer era um músico mestre. Ele deveria usar este dom para a glória de Deus (Pr. José Roberto Miranda – LOUVOR E ADORAÇÃO – A MÚSICA NO LOUVOR E ADORAÇÃO)”. Chuck Smith, comentando sobre Ezequiel 28:13, admite que a tradução deve citar “tamborins”, e admite também que aqui deve ser vista, também, a descrição de Satanás antes de sua queda. Este teólogo chama-nos a um ponto de equilíbrio, quando comenta sobre todos os que se baseiam neste verso para dizer que Satanás é o autor da música, na observação de que o verso não diz isso só porque menciona dois instrumentos musicais. Aliás, o verso diz que os instrumentos foram criados, logicamente por Outro ser, e entregues à criatura: Lúcifer. É claro, o Criador da música é Deus.

Andrew Fausset chama a atenção a um outro tipo correto de interpretação teológica, de que este “no dia em que foste criado” pode significar o dia da “entronação” (veja Salmo 2 em comparação com Hebreus 5), ou da posse do cargo. Logo, para este teólogo, “tamborins e toda marca de alegria foram prontamente preparadas” para este momento festivo (The Book of the Prophet Ezekiel – Commentary by Andrew Robert Fausset – Christian Classics Ethereal Library).

O fato é que, quando a Bíblia descreve Lúcifer, entre os demais atributos deste ser, ela costuma citar também algum detalhe musical. O texto de Isaías 14 menciona que quando o diabo foi expulso do Céu, ele foi expulso com suas harpas (liras) e tudo (e por que não dizem que harpa é condenável?)! (verso 11). Note que este é um lamento, em primeiro lugar, contra a Babilônia, cujo rei, Nabucodonosor, praticava o culto apóstata (anti-crístico) ao som da trombeta, do pífaro (citado em Ezequiel 28:13), da cítara, da harpa (citada em Ezequiel 26:13 e em Isaías 14:11), do saltério, da flauta dupla, etc. Lemos isto em Daniel 3:5-7. E falando em Daniel, que é citado em Ezequiel 28:3, levando em consideração uma delimitação de texto mais teológica que a divisão de capítulos e versículos, precisamos notar que a profecia contra Tiro começa em Ezequiel 26:1 e vai até 28:19. Estes são os limites onde começaria e terminaria o “capítulo” sobre Tiro. E, dentro deste contexto, lemos: “porei fim a seus cânticos barulhentos, e não se ouvirá mais a música de suas harpas (e por que não dizem que harpa é condenável?)! (verso 13)”, “e depois entoarão um lamento acerca de você (verso 17)”. Isaías une as duas metáforas, contra Tiro e contra Babilônia, mencionando que, depois de esquecida por setenta anos, aconteceria com a nação apóstata o que diz a canção: “pegue a harpa, vá pela cidade, ó prostituta esquecida; toque a harpa, cante muitas canções… (Isaías 23:16)”. Neste igualar, a Bíblia também não perde tempo em nivelar o valor dos dois instrumentos: “tamborins e harpas (Isaías 30:32, também falando de apostasia nacional)”. O que faz Mathew Henry pensar em Ezequiel 28:13 referindo-se, também, a um contexto paradisíaco, “era a curiosa música que ele [o rei de Tiro, ou o personagem que ele figure] tinha, os tamborins e flautas, instrumentos manuais e outros instrumentos mais”. Portanto, em análise de contexto, o assunto música é sim, um dos itens da pauta bíblica que comenta a criação pura de Deus e depois sua apostasia, no caso, de Lúcifer.

Além de analisar o contexto, é preciso analisar também a palavra, em si, que é traduzida. E é interessante, porque não existe outra tradução para toph. Esta palavra, toph, aparece 17 vezes no AT. Em TODAS estas vezes, é SEMPRE traduzida como “tambor”, “tambores”, “tamborins”, ou alguma palavra variante que indique “instrumento manual de percussão” (Gênesis 31:27; Êxodo 15:20 (duas vezes); Juízes 11:34; 1Samuel 10:5; 1Samuel 18:6; 2Samuel 6:5; 1Crônicas 13:8; Jó 21:12; Salmo 81:2; 149:3; 150:4; Isaías 5:12; 24:8; 30:32; Jeremias 31:4 e Ezequiel 28:13). O texto hebraico ao qual me refiro, considerado fiel cópia do massorético, é do Codex Leningrad, desenvolvido pelo Westminster Hebrew Institute, no Westminster Theological Seminary in Philadelphia (uma versão revisada teológicamente em 2008).

A ferramenta bíblica Strong´s Hebrew Lexicon, que traduz Toph como “drum” explica que este tamborim, era na realidade feito de uma peça circular de madeira, coberta com pele e adornada com sinos engastados, de metais – pedras – semi-preciosos [ou, preciosos (Niebuhr´s Travels, vol. 1. página 181)], que contribuíam para a ornamentação do instrumento e/ou instrumentista. Francis Davidson, em “O Novo Comentário da Bíblia”, citando Cooke, recomenda que, “após a lista [das nove pedras preciosas, deve-se], ler: ‘de ouro era a obra de teus tambores e dos teus pífaros”. o próprio Moody admite que o texto massorético, que é muito mais confiável do que o da Vulgata, cita “tamborins” e não “engastes”. Moody, ao ver, no contexto, a necessidade de engastes, não chega a contradizer, pois nos tamborins, assim como na estola, há engastes.

Estas são algumas das razões pelas quais vejo, como a melhor das três opções teológicas de tradução para Ezequiel 28:13, a que vier a citar primeiramente 9 pedras preciosas, e depois a beleza do ser, somada a dois instrumentos musicais. O interessante é que mesmo entre os teólogos relacionados ao estudo de Ezequiel que se omitem em comentar o assunto ou que preferem outro tipo de tradução, praticamente não se encontra um argumento forte, convencível que desaprove a tradução de tophe para tambores em Ezequiel 28:13. Geralmente, as preferências por outros tipos de tradução acontecem por outras razões, como a tentativa da reconstrução da roupa sacerdotal, etc., mas não por não ver, também, a possibilidade de citar-se instrumentos musicais no contexto.

Diante disto, eu pergunto. O irmão teria uma outra proposta de tradução deste verso, que fosse mais convincente? Que razões lingüísticas, contextuais, teológicas, hermenêuticas, exegéticas e até mesmo homiléticas o senhor apresentaria? Antes de apresentá-las, poderiam ser apontados também os erros e suas razões, com provas comprovadas, nas evidências que acabo de relatar, que apóiam a tradução de toph para tambores em Ezequiel 28:13?


Tambores criados por Deus? Sim!


Pr. Valdeci Jr.


LEIA TAMBÉM: MÚSICA ADVENTISTA


Pergunta Que Será Respondida Amanhã:
 “Existe ‘Oração Mental’? Se a oração é comunicação, como posso orar mentalmente?”

5 comentários:

  1. Acompanhe a sequencia deste assunto em:

    http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=240063&tid=5565362362433602066&na=1&nst=1

    Se o link não funcionar, entre no Orkut, vá à comunidade Jovens Adventistas do 7º Dia, e veja o tópico de fórum: Tambores Criados Por Deus? Teologia de Ez. 28:13

    Ótimos comentários dos internautas.

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  2. Quando Lúcifer foi criado, conforme lemos em Ez. 28:12-19, além de uma preciosíssima cobertura de pedras coloridas e rutilantes engastadas em ouro, foi ele dotado de capacidade musical, pois tinha "em si seus tambores e pífaros". Som e ritmo, harmoniosamente combinados, capacitavam-no a ser o dirigente do coral celeste (Espírito de Profecia, págs. 28 e 29).

    O fato de ele ser "perfeito em sabedoria e formosura", ou como diz na Bíblia Viva, "Você era absolutamente perfeito em beleza e sabedoria", indica que a música que ele compunha e ensaiava com o coral dos anjos era perfeitamente bela, perfeita na forma ou estrutura musical, perfeita na maneira de interpretar, perfeita em alcançar o objetivos de adoração e auto realização segundo os padrões divinos.


    Fonte: Dario Pires de Araújo, Música, Adventismo e Eternidade, página 27.

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    Como dizia meu avô: "pro bom entendedor, um pingo é letra".

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  3. Não perdi tempo respondendo à suposta tréplica de Hilton Bastos porque na mesma ele apenas redundou no anteriormente dito; ou seja, não é uma tréplica, portanto, não merece uma resposta.

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  4. O que eu realmente não entendo é: como um instrumento tão criticado vem acendendo as Igrejas Pentecostais com o Espírito Santo de Deus? A Música e os instrumentos foram criados por inspiração divina de Deus. Daqui a pouco estarão condenando os guitarristas e tecladistas à fogueira do inferno, pois a Bíblia não fala de instrumentos eletrônicos. Que tal também se nos vestíssemos de vestidos, a mulher com um cinto fininho e os homens com cinturão grosso, para escandalizarmos de vez os ímpios. E eu ainda estou errado por debicar a Bíblia, mas tem hora que a indignação em razão da ignorância dos "crentes" que trocam a Inspiração do Espírito Santo de Deus pela Teologia, esquecendo que ela é apenas uma ferramenta que jamais substituirá o Espírito Santo de Deus na vida do Cristão. A Paz do Senhor Jesus.

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  5. Jesus deixou para nós dois mandamentos para não nos desviarmos da estrada: amar a Deus sobre todas as coisas e amar nosso próximo como a ti mesmo. Jesus diz claramente que apenas a simplicidade do dom do Amor é fundamental para a salvação do Cristão. Por isso que muitos simples de coração e alma voltados para Cristo vão conseguir a salvação, enquanto que muitos sábios se perderão no caminho. Falem mais do Amor de Jesus e parem de debicar acerca de questões que só criam divisões. Como disse Jesus: "Porque quem não é contra nós, é por nós." (Marcos 9:40) e ainda advertiu:"E qualquer que escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que lhe pusessem ao pescoço uma mó de atafona, e que fosse lançado no mar." (Marcos 9:42). A Paz do Senhor Jesus

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